O desperdício de talentos

Há consenso na literatura especializada a respeito da relação entre nível socioeconômico e desempenho escolar. Independentemente do estado onde residem, da escola em que estudam, do professor que têm, estudantes com maior nível socioeconômico tendem a ir melhor em testes padronizados como Enem e Prova Brasil. O motivo é o maior investimento recebido desde a primeira infância: saneamento básico, pré-natal, alimentação balanceada, estímulos cognitivos e socioemocionais. Prover um ambiente saudável e estimulante para a criança é mais fácil quando há condições socioeconômicas para isso. Contudo, dados do Enem mostram que há exceções.

A figura abaixo foi elaborada com dados de 2019, antes, portanto, da pandemia de Covid-19. Naquele ano, aproximadamente 1,2 milhão dos candidatos estavam concluindo o ensino médio. Desses, mais da metade (barras escuras) eram provenientes de famílias com renda mensal abaixo de 1500 reais (a preços de 2019), ou seja, se considerarmos que há ao menos uma pessoa a mais na família além do candidato, a renda familiar per capita era menor do que um salário mínimo para mais da metade dos candidatos concluintes.

Na outra ponta, menos de 15% tinham renda familiar acima de 5 mil reais. No entanto, entre os 10% melhores alunos (considerando a média das cinco provas), pouco mais da metade possuía essa mesma renda familiar (barras claras). Conforme esperado, candidatos com renda familiar mais alta estão sobrerrepresentados entre os melhores.

Mesmo diante das adversidades impostas pela restrição de renda, mais de 15 mil candidatos (ou 13%) com renda familiar inferior a 1500 reais obtiveram desempenho para estar entre os 10% melhores naquele ano. Esses candidatos representam somente 2,5% daqueles nessa faixa de renda (600 mil), mas representariam cerca de 600 turmas de 25 alunos se juntássemos todos eles. Dadas as condições, não é pouca coisa.

Entretanto, será que somente 2,5% desses alunos têm alto potencial? A sensação de que o país desperdiça talentos parece mais crível. Há que se pensar na possibilidade de existir uma massa de alunos de baixa renda que, com alguns empurrões, também possa obter um ótimo desempenho no Enem. Como encontrar esses alunos é a questão.

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