Incertezas e fim de benefícios comprometem emprego no fim de ano

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fim de benefícios

Os meses finais do ano de 2020 têm apontado para algumas surpresas nos indicadores de mercado de trabalho brasileiro. De um lado, a taxa de desemprego medida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PNADC) alcançou patamar de 14,6% no trimestre móvel encerrado em setembro. Trata-se de uma alta de 0,1 p.p em relação ao trimestre móvel encerrado em agosto (14,5%). Para o mês de outubro, esperamos um desemprego de 14,7%.

O resultado de desemprego de setembro representa o pior nível em quase 30 anos, quando considerada a série da PNADC desde 1992. Contudo, apesar dos dados negativos do desemprego, a PNADC de setembro aponta algumas surpresas positivas de aumento da População Ocupada (PO). A PO apresentou crescimento de 1,0% no nível de setembro frente ao trimestre móvel de agosto, sendo a primeira alta deste indicador desde o início da pandemia, em março.

Outra surpresa positiva no mercado de trabalho foi o saldo de emprego formal do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) de novembro, que registrou criação de 415 mil novos postos de trabalho. Trata-se do maior nível observado desde o início da série histórica em 1992. Este número representa um patamar superior à estimativa mediana de analistas para novembro (300 mil), e se aproxima das estimativas de saldo CAGED do IDados para o mês (360 mil). No acumulado do ano até novembro, o saldo CAGED já alcança o saldo acumulado positivo de 227 mil vagas.

Apesar dos resultados positivos no mercado formal nos últimos meses – o que aponta para fortes sinais de recuperação em V do emprego com carteira assinada (gráfico 1) -, observamos que esta recuperação intensa dificilmente se manterá em dezembro de 2020, promovendo um saldo acumulado mais fraco no 4º trimestre. São três os principais fatores que contribuirão para uma desaceleração do emprego formal no 4º trimeste: i) sazonalidades de fim de ano; ii) aumento da incerteza para consumidores e empresas em dezembro; e iii) fim, em dezembro, do programa de subsídio para manutenção do emprego, chamado de Benefício Emergencial (BEm).

No primeiro fator, observamos que as sazonalidades de fim de ano tenderão a ser um importante elemento de atenuação na tendência de recuperação do emprego formal no 4º trimestre. É que dezembro tende a ser tipicamente um mês de demissões de contratos temporários da indústria e comércio, ocorridas logo após as vendas das festas de fim de ano. Essas demissões de dezembro certamente prejudicarão o saldo do 4º trimestre.

Quanto ao segundo fator, notamos importantes sinais de aumento das incertezas dos consumidores e empresas, segundo os indicadores mais recentes de expectativas e confiança de atividade. O gráfico 2 demonstra uma interrupção na sequência de queda do Índice de Incerteza da Economia Brasileira (IIE-Br) medido pela Fundação Getulio Vargas (FGV), apontando para uma leve elevação no mês de novembro. Esta reversão na queda do IIE-Br se encontra associada à redução das concessões de benefícios do Auxílio Emergencial e aumento das expectativas de inflação, comprometendo o rendimento das famílias. Este aumento das incertezas também está associado à segunda onda de covid-19, diante do aumento de casos no mês de novembro (gráfico 3).

E, por fim, no que tange o terceiro fator, lembramos que o BEm está previsto para acabar em dezembro. Este programa, que cumpriu um importante papel na manutenção do emprego de 9,7 milhões de trabalhadores durante a pandemia, dificilmente será prorrogado em 2021 pelo governo, em meio ao quadro de fragilidade fiscal enfrentado pelo país. Diante deste cenário de não-prorrogação, o fim do programa em dezembro tornará insustentável às empresas a manutenção da folha de pagamento de funcionários, obrigando-as a aumentar suas demissões em dezembro de 2020 e nos primeiros meses de 2021.

Todos estes fatores somados podem contribuir para uma piora nos indicadores de emprego formal em dezembro. Esperamos, neste sentido, que o 4º trimestre seja marcado pela desaceleração na geração de empregos formais (103,9 mil vagas), como podemos notar na tabela 1 abaixo. Confirmada nossa projeção para o último trimestre de 2020, chegaremos a um saldo acumulado de CAGED no ano de -357 mil. A tabela também aponta que o ano de 2020 será marcado por forte queda de PIB (de -4,1%), levando a uma elevação do desemprego médio anual de 11,9% para 13,8% entre 2019 e 2020.

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